Quando o amor extrapola os 10%



"De que vale dizimar 10% e passar o resto da vida morrendo de amores pelos 90?"


Em nossos cultos somos sempre lembrados sobre a entrega dos dízimos e das ofertas, contudo, é o dízimo que sempre ganha destaque. No Antigo Testamento, em Malaquias 3:8, 10b, o autor diz que são ladrões, tanto quem não dizima quanto quem não oferta. No Novo Testamento fala-se muito pouco em dízimos, mas enfatiza muito mais sobre as ofertas. As ofertas surgem como assistência aos santos, alívio à pobreza, amparo às viúvas, estrangeiros, órfãos, doentes, etc - 2Co 8:1-15. Elas rompem a barreira do egoísmo e abre portas para a Graça de Deus, para a fé e o amor. Tendo condições e vendo as necessidades alheias, compadecemos das pessoas e fazemos de tudo para aliviar suas dores ou suprir suas necessidades básicas e emergentes.



Malaquias nos apresenta uma situação deplorável e corrupta. Malaquias 3:10 denuncia o egoísmo e a ganância do coração humano. Surge como uma repreensão seguido de maldição para quem não pratica, bênçãos e promessas portanto para quem pratica. Assim, grosso modo, por se tratar de um ato litúrgico e uma ordenança; por causa da promessa ou para evitar maldição; por fé ou mera religiosidade; todo cristão entrega seu dízimo. Amam a Deus 10%. Cumprem com sua obrigação, e "fazem as pazes com Deus". No entanto, no Novo Testamento, é a oferta que ganha maior destaque, tanto no discurso de Cristo como na teologia paulina.



Tanto em Cristo quanto em Paulo a ênfase maior está nas ofertas. Em 2Coríntios 8 e 9 vemos Paulo dando maior ênfase nas ofertas. Afinal, qual a diferença entre dar o dízimo e dar oferta? Se eu dou dízimo, preciso ainda dar oferta? A seguir, faço alguns apontamentos interessantes sobre o dízimo e a oferta.



Considerando o contexto do livro de Malaquias, onde a sociedade religiosa encontrava-se num estágio bem avançado de corrupção e egoísmo, foi preciso muito mais que só avisar o povo sobre seus pecados. Além do dízimo ser uma ordenança e fazer parte do contexto litúrgico da comunidade do Antigo Testamento, a não prática é seguida de punição e maldição. Todo àquele que adora a Deus deve também adorar com a entrega do seu dízimo.  Já no Novo Testamento, Cristo, e depois Paulo, trabalham com o princípio da oferta, que é um ato em amor, voluntário e generoso. Assim como na prática dos dízimos, há muitas bênçãos e promessas para quem oferta, contudo não vemos consequências ruins, maldição ou punição por não ofertar. No entanto, Cristo elabora seu argumento sem menosprezar a doutrina judaica onde o dízimo é uma prática comum, uma ordenança, um ato litúrgico seguido de maldição e punição.



No Antigo Testamento portanto, temos por lei, e doutrina judaica a prática de dar 10% de toda a nossa renda. Já no Novo Testamento, a oferta é uma atitude do coração. Uma questão de amor e generosidade. Não há limites para sermos generosos. Não ofertamos apenas dinheiro, ofertamos também nosso tempo, nossos dons e talentos, carinho, amor, hospitalidade, nossa influência para conseguir alguma ajuda.



Quando ofertamos na vida de alguém, aproximamos e nos envolvemos diretamente com as pessoas e suas necessidades. É um ato voluntário de amor e generosidade que nos torna mais humanos e cada vez menos egoístas. Ofertar é honrar ao Senhor, é ser o próximo de alguém, é ter compaixão. É ajudar pessoas a partir do nosso relacionamento direto com elas.


O dízimo é lei, faz parte da tradição judaica, da liturgia judaica. Da mesma forma, nos dias atuais tanto o dízimo quanto a oferta também fazem parte da liturgia no culto cristão, é quase sempre entregues como lei, mandamento, um ato litúrgico ou religioso apenas. Para uns, uma obrigação que alivia o peso da sua consciência por ter muito ou por colaborar pouco. Para outros, uma barganha, ao mesmo tempo que entregam, cobram de Deus suas bênçãos.

Paulo comenta sobre o exemplo dos irmãos da Igreja da Macedônia dizendo que eles o surpreenderam, dando primeiramente ao Senhor, e pela vontade de Deus, também aos necessitados - 2Co 8:5. Isso quer dizer que, em relação às suas posses e bens, tiveram a atitude de se colocarem como mordomos de Deus, não só doando, mas doando-se. Dando não somente os dízimos, como também ofertando e ajudando seus irmãos na fé.


Doar, abençoar, importar-se, identificar-se com as necessidades alheias são sinônimos para dizimar e ofertar e tem haver com o nosso relacionamento com Deus, de que Ele é dono de tudo, que o nosso coração é somente do Senhor e do quanto amamos a Deus e o próximo. Embora existam diferenças claras entre ofertar e dizimar, o princípio deve ser o mesmo - amar, doar, abençoar. Ambos, principalmente ofertar, não devem ser feitos de qualquer maneira, mas com amor, fé, alegria, generosidade, compaixão, conforme 2Co 9:7,10-12; Mt 6:3,4. Não é a oferta ou o dízimo que Cristo destaca e elogia, nem tão pouco o ato de ofertar ou dizimar. Contudo, é a atitude do coração da viúva pobre, que da sua pobreza deu tudo o que tinha. Ou seja, dizimando ou ofertando, o que mais importa é que tenhamos a mesma atitude, o mesmo coração e disposição daquela viúva pobre, que antes de ofertar, amou.



Muito além de mandamento, obrigação, medo, bênção ou maldição, dizimar e ofertar são uma das maneiras que temos de demonstrar o nosso amor por Deus e pelo próximo. Se é que podemos fazer esta distinção - a Bíblia faz, penso que ofertar é muito mais libertador, além de ser uma prova do nosso amor para com Deus. A partir do Novo Testamento, não há uma maldição, repreensão ou condenação para quem deixa de ofertar, mas há muito mais bênçãos para quem o faz. Quando ofertamos, amamos a Deus de maneira generosa, espontânea e voluntária. Ofertar não é uma obrigação, é uma atitude do coração. Assim também acredito que deve ser o dízimo. Com a minha oferta eu tenho a oportunidade de me aproximar das pessoas e abençoá-las de forma direta e pessoal. E com o meu dízimo, tenho a oportunidade de abençoar as pessoas indiretamente por meio do culto litúrgico, em uma instituição religiosa.



Creio que a repreensão dada aos sacerdotes e também ao povo em Malaquias 3:10 deveria ser muito mais uma forma de pedagogia do que um ato de "escravidão" ou terrorismo - como observo alguns pastores fazendo nas igrejas. Acredito que depois de aprendido a relevância e o significado do ato de dizimar, este deveria se tornar uma prática, um hábito espontâneo em amor, por amor. Neste sentido, podemos até mudar as estruturas, o sistema, mas não podemos garantir que eles possam transformar o coração humano. Como podemos notar, o problema sempre foi o fato de ter um coração tão corrupto, ganancioso e desumano a ponto de usar Deus, a religião e as pessoas para fins egoístas. Nisso, justificam-se os meios usados para manipular a massa, sejam eles religiosos, políticos, governamentais.

Talvez o coração dos sacerdotes e religiosos quanto a prática dos dízimos no Novo Testamento estava tão corrompido, que não valia a pena sequer comentar sobre o assunto. Quem sabe não seja por isso que ao invés de criticar o mau uso da prática dos dízimos no Novo Testamento, vemos com mais ênfase Cristo falar sobre o amor ao dinheiro e o apego material. No entanto, seria muito bom aplicar a prática dos dízimos da mesma maneira como aplicamos a prática das ofertas. Não por medo ou obrigação, mas por libertação, com liberdade, por amor a Deus e também ao próximo.

Cristo veio ao mundo por nossa causa, para que pudéssemos ter vida em abundância. E tendo vida, que pudéssemos viver 24 horas por dia para Ele, e não apenas 1 ou 2 dias na semana. Sendo Deus, quis ser humano. Mesmo dono de tudo, optou por não ter nada, não para ter uma vida pobre e miserável, mas para nos ensinar que o nosso maior tesouro está no céu. Ele nos ensinou a viver para o Pai, a almejar o céu ao invés de cobiçar os tesouros desta terra. Com a sua morte nos mostrou que amar é doar sem medidas, não apenas com 10% do nosso dinheiro, mas com 100% da nossa vida. Contudo, ele também ressuscitou para completar a sua obra e para que a nossa fé e esperança não se apoie somente em argumento humano, raciocínios lógicos ou fatos científicos.

Harry Érick

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